Eleição para Reitoria

Conquista democrática e fruto de luta e união

A consulta à comunidade universitária para escolha de reitor e vice-reitor na centenária UFPR é um direito que foi conquistado depois de muita mobilização.

Em 1981, na esteira dos movimentos que começavam a ser organizar na sociedade em busca da retomada da democracia, a comunidade acadêmica da UFPR se organizou para realizar pela primeira vez um processo de consulta coletiva.

A iniciativa mobiliza os três segmentos da Universidade e o professor José Lamartine da Lyra Neto é escolhido reitor por 2.346 votos, seguido do professor Átila Rocha, que recebeu 1.808 votos. O Conselho Universitário, entretanto, ignora a consulta à comunidade e encaminha a lista ao Ministério da Educação com outros nomes. O ministro, então, empossa o professor Alcy Joaquim Ramalho – último reitor da UFPR indicado pela ditadura militar.

Mas a comunidade universitária não abateu e o sentimento de que a própria UFPR deveria escolher seu caminho foi crescendo. Todo aquele movimento lançou base para o que viria a acontecer quatro anos depois.

Veio então o ano de 1985 e, com o fim da Ditadura Militar, a escolha da comunidade foi finalmente respeitada.

Naquele histórico 6 de novembro de 1985, foi eleito o primeiro reitor democraticamente escolhido. Sete candidatos tiveram a honra de terem os nomes escritos naquela cédula histórica: Arthur Petroski (Administração), Francisco Moraes Filho (Medicina), Afonso Antoniuk (Medicina), Dante Romanó Jr. (Medicina), Maury Cruz (Direito), Roberto Kugler (TAE) e Riad Salamuni (Geologia), que foi o mais votado pela comunidade e entrou para a história como o primeiro reitor democraticamente escolhido na UFPR.

Docentes, estudantes e técnicos se unem para pressionar o Conselho Universitário (Coun) que, dessa vez, respeita a escolha coletiva e envia para o MEC a lista sêxtupla encabeçada por Riad Salamuni.

No ano seguinte, Dante Romanó Jr. foi eleito vice-reitor, já que havia uma disparidade de período de mandato entre reitor e vice-reitor.

Desde que a luta pelo direito de escolher seus dirigentes tomou corpo na UFPR, no começo dos anos 1980, grandes debates foram realizados para que a comunidade pudesse dialogar sobre as questões fundamentais para a universidade.

O processo eleitoral, desde então, tem sido organizado pelas entidades representativas dos três segmentos da UFPR: APUFPR, DCE e inicialmente Assufepar (o Sinditest foi fundado em 1992) por meio da Comissão Paritária de Consulta (CPC).

Porém, nem tudo na história é linear e o formato de escolha direta enfrentou ataques recentes já no governo Bolsonaro.

No fim de 2019, ele editou a Medida Provisória (MP) 914/2019, que terminava com a paridade de segmentos nas consultas e desobrigava o MEC a escolher o mais votado. A MP ainda tinha um dispositivo que permitia a nomeação de interventores caso houvesse algum indício de irregularidade no processo. A MP caducou em junho de 2020 e perdeu o efeito legal.

No mesmo mês, Bolsonaro editou a MP 979/2020, que suspendia os processos eleitorais durante a pandemia e permitia a nomeação reitores-interventores nas IFES nas quais o mandato de reitor se encerrassem no período. O Senado devolveu a MP por considerá-la inconstitucional, fazendo com que perdesse efeito.

É por isso que, apesar de todos os avanços democráticos, toda a comunidade acadêmica precisa permanecer vigilante, para garantir que cada processo seja respeitado.

Foram necessárias muita luta e muita união para que a comunidade acadêmica da UFPR pudesse ser dona de seu próprio destino. E seu resultado é fruto da vontade soberana de docentes, discentes e técnicos administrativos.

Estes foram os reitores e vice-reitores eleitos em consultas diretas na UFPR:

:. 1986-1989: Riad Salamuni (Geologia) e Dante Romanó Jr. (Medicina)

:. 1990-1993: Carlos Faraco (Letras) e Mário Pederneiras (Biologia)

:. 1994-1997: José Henrique de Faria (Administração) e Maria Amélia Zainko (Pedagogia)

:. 1998-2001: Carlos Antunes (História) e Rômolo Sandrini (Medicina)

:. 2002-2005: Carlos Augusto Moreira Jr. (Medicina) (**) e Aldair Rizzi (Economia) (*)

:. 2006-2008: Carlos Augusto Moreira Jr. (Medicina) e Márcia Mendonça (Farmácia) (***)

:. 2008-2012: Zaki Akel Sobrinho (Administração) e Rogério Mulinari (Medicina)

:. 2013-2016: Zaki Akel Sobrinho (Administração) e Rogério Mulinari (Medicina)

:. 2017-2020: Ricardo Marcelo Fonseca (Direito) e Graciela Bolzón de Muniz (Engenharia Florestal)

Notas:

* Carlos Moreira Jr foi eleito em novembro de 2001, em eleição realizada no meio de uma longa greve docente, que durou 108 dias, vencendo Luiz Edson Facchin, que se tornaria ministro do STF em 2015.

** O vice-reitor de Moreira Jr, Aldair Rizzi, retirou-se da gestão para assumir a Secretaria de C&T do governo estadual (Requião).  Foi substituído por Maria Tarcisa Bega, que antes se submeteu a uma consulta direta em 2003 (conduzida principalmente pelo Sinditest) embora fosse candidata única.

*** Moreira foi reeleito reitor no final de 2005 (pela primeira vez), em meio a intensos questionamentos de setores dos movimentos sobre a correção do processo eleitoral e de sua campanha. Estudantes ocuparam a Reitoria para impedir que o Coun homologasse a lista tríplice. Ainda assim, Moreira foi confirmado novamente reitor em dezembro de 2005.  No entanto, ele renunciou ao cargo, em maio de 2008, para ser candidato a prefeito de Curitiba pelo então PMDB (obtendo apenas 19.157 votos). A vice-reitora Márcia Helena assumiu a reitoria, pela primeira vez conduzida por uma mulher, embora num período de fim de gestão e muita confusão dentro do Coun sobre as regras eleitorais.